Um Circo sem animais

Circo sem animais?

No passado dia 25 de Outubro a assembleia da república aprovou um diploma que proíbe o uso de animais em espectáculos de circo.

Hoje dia 14 de Dezembro convidaram-me para ir assistir ao espectáculo de Natal do Circo Chen, prontamente, aceitei com um pensamento em mente:

- Deixa-me lá ir ver como é um circo sem animais.

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Estacionamos o carro no lado lateral à tenda de circo e logo o primeiro sinal que algo estava diferente surgiu, ou neste caso não surgiu.

Onde é que está aquela fragrância animal que nos fazia semicerrar os olhos como se estivéssemos a assar sardinhas no fogareiro? Aquele odor que nos fazia prescindir do GPS a uma distância de 3 km do local.

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Entrei na tenda e a antecâmara das bilheteiras continua igual, assim como a tenda intermédia, onde se encontram alguns carroceis para os mais pequenos, assim como petiscos para grandes e pequenos.

Logo aqui percebe-se uma nova mentalidade de marketing Ryanair Style . Oferecem-nos os convites para o circo mas depois cobram 1,10€ por uma garrafinha de água de 20cl e 3€ por uma Sagres, que é bem mais cara do que nos santos populares de Lisboa e nos santos ainda vemos um ou outro animal.

Quando se entra para o recinto notam-se umas diferenças estruturais.

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A arena (porque tinha areia) deixou de o ser, agora é um palanque alcatifado branco com cerca de dois palmos de elevação o diâmetro foi reduzido em cerca de 4 metros. Agora encontramos num género de fosso negro como vestígio da antiga arena dos cavalos a galope.

O espectáculo começou às 21h35 com 7 números na primeira parte e 7 na segunda com um intervalo de 30 minutos pelo meio com apelos aos produtos que se encontravam à venda.

Entre humor, números musicais e destreza física lá me fui deslumbrando com a arte do circo.

O palhaço Benny e a sua habilidade de tocar inúmeros instrumentos e fazer rir fez-me soltar copiosas gargalhadas, encheu-me as medidas.

Não senti falta dos animais, sempre que vejo animais domados pelo homem sinto-me desconfortável, não sei se pelo sofrimento em que alguns vivem nas suas jaulas ambulantes ou se pela arrogância prepotente do homem que julga que manda nisto tudo.

Há uns tempos atrás quando o diploma ainda estava em debate o empresário e domador de Leões Cláudio Torralvo do Circo Cláudio argumentava que a essência do circo são os animais. Ontem no decorrer do espectáculo aquando a actuação de Benny o apresentador disse algo que eu subscrevo e remeto à vossa consideração:

O Palhaço é a alma do Circo e a música o seu espírito”

No meu caso nem trapezistas nem acrobatas na corda bamba me cativam, não tanto como os palhaços que tocam, saltam e mimam, os mestres da comunicação.

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Quando o destemido artista da roda da morte caminhava sobre uma cuba de inox lá em cima bem perto dos tirantes da tenda, eu cheio de borboletas no estômago, só pensava na sua família quando ele se estatelasse no chão, até porque ele tropeçou e quase caiu e não, não foi a fingir, mas o doido decidiu repetir, tal qual um forcado após ter roçado a arena toda numa falsa partida com o Boi.

Este circo também é cruel para estes artistas, não se deviam arriscar assim pela prata.

Eu que achava, que o Circo podia estar sentenciado sem os animais dou a mão à palmatória e contribuo para o derrubar de um pensamento estereotipado que muitas das vezes nos impede de experimentar novos caminhos baseado no argumento da tradição.

Ah! Faz parte da tradição! 

Acho que o próximo passo deve ser o toureio a cavalo com farpas de velcro.

Toureio a Cavalo não!

O cavalo deve ficar nas pastagens a comer e o Cavaleiro deixa de o ser. 

Assim é que está correcto.

Nuno Maneta

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