Fome de Integração

O presente texto analisa aspectos de um lugar de exclusão social na cidade de Lisboa, investiga as diferentes interações e circunstâncias de alguns dos indivíduos que o frequentam. O terreno escolhido é as proximidades do Centro de Apoio Social e de Acolhimento Nocturno dos Anjos vulgo Refeitório dos Anjos, referido daqui para a frente como CASANA (SIPA, 2011)
A análise aqui exposta remete para este único local. No entanto sendo um local frequentado em predominância por indivíduos sem-abrigo da área em Lisboa, este ponto acaba por nos dar uma válida e representativa amostra dos sem-teto em Lisboa. Considero que este é “O” lugar dos excluídos em Lisboa.
A metodologia empregue foi a de observação participante, com algumas conversas informais, usei a amostragem por acessibilidade ou conveniência, pois na verdade eram estes indivíduos que tinha à disposição na rua, nas imediações do refeitório. Acabou por ser o método mais adequado pelo cariz de espontaneidade que queria dotar esta observação. Queria evitar entediar, com formalismos, os já vulneráveis alvos da pesquisa. Fiz diversas visitas ao local ao ponto de reclamar o local como um dos meus locais de paragem durante uns tempos, assim o tempo me permitisse.
Adotei para este ensaio duas propostas teóricas: Estigma – Notas sobre a Manipulação da Identidade de Erving Goffman e Outsiders – Estudos de sociologia do desvio de Howard Becker.
Estas escolhas tornaram-se óbvias após as observações efetuadas. Cada um dos intervenientes por mim sondados e observados pareciam estar contemplados nos exemplos de Goffman e encaixavam sem grandes desvios nas examinações de Becker.

Contexto Histórico do CASANA
O problema da fome e dos sem-abrigo em Lisboa não é de agora. Logo após as invasões francesas (1810) cerca de 50 000 pessoas famintas entram em Lisboa obrigando os responsáveis a criar um suporte de distribuição regular de sopas económicas em diversos pontos da cidade sendo o refeitório dos Anjos, originalmente nomeado Cozinha Económica dos Anjos, a par com a da Travessa do Forno aos Prazeres de Alcântara de Xabregas e do Cais de Santarém na Ribeira Velha a rede inicial de 5 cozinhas que originalmente se idealizam para combater o flagelo da fome na capital. Este refeitório dos Anjos tal como o conhecemos, foi inaugurado em 22 Abril de 1914 e teve o custo total de 39.000$00 sendo projectado pelo Arquitecto Lino de Carvalho. (SIPA, 2011).

Observação Preliminar – Lisboa, Sábado 28 Fevereiro 2015
Numa visita preliminar, após o término do almoço solicitei a uma colaboradora do CASANA, autorização para poder observar o espaço durante uma refeição. Após ter ouvido as minhas intenções, pediu que solicitasse a autorização à Diretora, (Dr.ª Ana Sofia Branco). Como a diretora não se encontrava nas instalações fui aconselhado a telefonar na 2ª feira seguinte. Cheguei à conversa com a diretora e após a minha declaração de intenções, solicitou-me que requeresse através de email a autorização para a administradora da Santa Casa da Misericórdia para a Ação Social, Drª Rita Valadas.
Toda esta burocracia fez-me pensar, na espontaneidade e informalismo que eu pretendia para o trabalho e não seria com esta abordagem que iria conseguir observar a naturalidade ou a autonomia que pretendia.
Após verificar a forma relaxada que os utentes se iam distribuindo pelo largo dos Anjos, decidi que o local de observação seria no exterior do edifício e no jardim envolvente, passei assim à ação daquilo que pretendo que seja a análise e teorização dos casos observados sem entrar em generalizações.

O Estigma do lugar
Se observarmos o conceito de Estigma tal como Ervin Goffman nos apresenta, podemos personificar, o CASANA como um dos edifícios mais estigmatizados na Cidade de Lisboa. Consideremos uma breve análise das diferentes denominações que o local tem, a saber:
(Cozinha Económica dos Anjos, Sopa do Barroso, Sopa do Sidónio ou Sopa dos Pobres).
Apesar da sopa ser muito nutritiva reparamos que todas estas denominações, ainda usadas, atualmente, continuam a ter um significado pejorativo. Mesmo após as renovações estéticas e até organizacionais levadas a cabo no ano de 1998
Quando no contexto Português, ouvimos um individuo dizer a outro:
– Um dia ainda te vou ver na sopa do barroso!
Percebemos que é um género de maldição, que está a ser lançada.
Ou, se, exaltado! O dono de um restaurante adverte um dos seus empregados:
– Mas tu pensas que estás na sopa do Sidónio ou quê?
Entendemos que ele está a exaltar a qualidade do seu restaurante em detrimento a um outro de inferior requinte. Sendo a bitola inferior aqui o refeitório dos Anjos.
Hoje já faz parte do vocabulário aludir a este local (CASANA) para fazer referência à desgraça, pobreza, fome e crise.
O Estigma do CASANA é histórico e já faz parte de muitas narrativas da Cidade de Lisboa, independentemente da história dos estigmas que a ele estão associados, (fome, pobreza, alcoolismo ou toxicodependência, doença mental, etc).
O Estigma não desapareceu com as obras de renovação do edifício, de 1998 ou com as melhorias significativas no menu, aliás, “sopa dos pobres” é uma designação que a responsável pelo espaço, Drª Ana Sofia Branco, rejeita já que ali servem “o menu completo” e não apenas sopa, como ela refere. Outra das causas de aprofundamento deste estigma são as noticias que surgem nos jornais ou na televisão. Se sondarmos o histórico noticioso sobre o CASANA, reparamos que a maioria dos jornais e canais de televisão usam o CASANA como barómetro para a crise ou simplesmente como montra representativa dos desafortunados em Portugal e em particular em Lisboa. (C.Manhã, 15.02.2009)

Já Chega! Isso não é informação a mais?
Estacionar o carro na Avenida Almirante Reis não foi fácil, surge um vulto à esquerda na minha janela.
Boa tarde! Chefe não tem uma moedinha?
– Nada como começar com a típica arrumadora lisboeta.
Estacionar automóveis há 20 anos atrás, era das piores desonras que podia haver. Podias ser ladrão, alcoólico ou drogado mas estacionar carros carregava um estigma ainda maior. Das piores exposições públicas que se podiam assistir, mesmo no seio dos estigmatizados, era alguém a ser confrontado com a seguinte sentença:
– Então pá, agora andas a arrumar carros?
Quem presenciasse, este tipo de confronto dava graças aos céus por ser simplesmente toxicodependente ou alcoólico.
A história natural deste tipo de estigma alterou-se. Começa nos anos 90 com o toxicodependente desesperado que tem falta de engenho ou coragem para se “orientar” . Com o passar dos anos foi-se alterando o perfil de quem praticava este meio de subsistência. Alcoólicos e sem-abrigo cativam mais tarde o seu espaço nessa atividade em crescimento. Hoje vulgarmente encontramos diferentes problemas sociais e até quem não tem vícios com drogas ou álcool.
Vejamos o caso da Alice a minha “arrumadora”: Não é utente do CASANA, mas já foi durante 19 dias, quando expirou a licença para ali comer foi avisada que tinha de falar com a Assistente social, mas ainda pôde comer naquele dia.
Tem um filho de 10 anos que lhe foi retirado por causa dos 3 AVC’s que já sofreu, mora num quarto no Martim Moniz, e vai buscar a comida ao Centro do Martim Moniz. Tem um namorado mas está preso no E.P.L. e toma Tetradin no centro de saúde.
Perguntei-lhe unicamente se almoçava ali? E como é que funcionava o refeitório? No entanto recebi toda a relevante informação, supracitada, foi pelo menos a que recordei e consegui escrever enquanto ela foi parquear outro carro. A Alice opta por não encobrir a sua carreira moral e (Goffman, 1963-2004 p. 65) muita da sua informação social, talvez porque os signos que transmite sejam deveras reflexivos (Goffman, 1963-2004 p. 39) acabando dessa forma por usar a sua carreira moral anterior como forma de vitimização, sendo premente o desejo de reconhecimento ou de uma aceitação no presente quando diz que: – Agora eu só estou a tomar o Tetradin por causa do álcool, mas mais nada. E chega!
Ao observar os signos que Alice transmite, a sua voz arrastada ou o “gingar” expressivo do corpo. Poderíamos dizer que ela não tem noção da má condição em que se encontra. Mas essa seria uma observação redutora que os “normais” têm face ao progresso que ela aparenta ter tido desde um buraco escuro até à luz do dia, onde parece agora estar.
Quarto pago, almoço, jantar e 150€. Parece o Básico para sobreviver. Mas e o que fazer com o tempo disponível como gerir pensamentos e traumas acumulados.
– Alice porquê que vens para aqui para o largo, se nem almoças aqui? Perguntei-lhe
– Porque ao menos aqui está pessoal que eu conheço. Lá em baixo é só coscuvilheiras que não interessam a ninguém.
As coscuvilheiras, vizinhas de Alice são para ela as Outsiders (Becker, 1991 p. 15), elas criam-lhe desconforto com as suas regras, críticas ou unicamente com os seus olhares, são as suas juízas. Aqui no largo dos anjos o nível de julgamento parece ser muito menor.
Nesta fase, passo a ter uma perspetiva diferente do Largo dos Anjos Começo a senti-lo como um lugar de inserção para quem tem um estigma do tipo desacreditado. Parece ser mais fácil para um estigmatizado sentir-se integrado e aceite aqui.

Seguindo as Normas da Casa.
A quantidade de “arrumadores” ultrapassa largamente os lugares vagos, a indumentária de muitos não desvenda que são utentes diários do CASANA, esses, os mais bem vestidos ainda têm oportunidade e a preocupação de preservar alguns símbolos de prestígio. Os Sapatos engraxados uma camisa engomada uns óculos escuros da marca Rayban. São muitas vezes essas aparências que os mantem de cabeça erguida. O Estigma do local faz com que eles rapidamente desapareçam da zona após o almoço. Se foram os Homens que estigmatizaram o local ao longo dos anos o contrário agora também acontece. Neste momento quem passar por aqui talvez crie uma identidade social sobre mim, só porque aqui estou neste local. Associando o estigma do local e os indivíduos com que estou acompanhado e quem conhece a minha carreira moral, digamos que está criada a conjetura para me traçarem uma identidade social virtual bem convincente, mas não real. O povo diz: “Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és.” Mas sabemos que o povo está muitas vezes enganado.
Sentados pelo largo os que ficam não têm medo de manchar a sua reputação o encobrimento dos que ficam desenrolasse numa esfera mais pormenorizada. Muitos fumam tabaco de enrolar sendo para alguns, prática comum sacar para dentro do pacote o tabaco de algumas beatas encontradas pelo chão. O Marco António e a Cleópatra fazem desta prática um ritual a tempo inteiro. Mas o Marco António apregoa a viva voz que só está a tirar o tabaco. Mas mete-lhe nojo ver alguns que apanham as beatas e as põem na boca e fumam. Achei curioso, pois sabia que isso se fazia, mas o Marco António promove de tal maneira essa prática que quase nos convence que é uma conduta universal que todos deveriam faze-la.
A verdade é que ele não nega tabaco quando lhe pedem e neste momento estão 2 a fumar do tabaco que ele vai juntando. Depois do que o Marco disse estou convencido que ninguém ali vai admitir que fuma beatas do chão. Foi quase como se uma nova norma ali estivesse estabelecida. Sacar o tabaco das beatas é aceitável mas fuma-las é imundo e inadmissível. E na verdade dos que ali estavam não ouvi ninguém a discordar.

Vê se te Mancas ?
O César de óculos escuros sobre o cabelo, tem estado encostado à parede junto à entrada do Lisbon City Hotel, o edifício pegado à direita do refeitório. Já tinha reparado nele há uns bons 10 minutos, não parecia fazer parte daquele contexto. Atravessou a rua e veio em direção às escadas da igreja onde eu me encontrava sentado junto de um grupo que tinha acabado de almoçar há pouco. César aproxima-se e pousa o seu saco de viagem preto, do tipo “Sport Billy”. Fica virado, de pé, para o grupo que fala de futebol:
– “O Benfica que não se ponha pau não, Se o Porto se apanha à frente nunca mais o tiram de lá”. Disse Átila – De seguida César intrometeu-se na conversa, – nem percebi o que disse – mas ninguém lhe respondeu. Chamou-me a atenção, pois, apercebi-me que ninguém o conhecia. A linguagem corporal do grupo, disse-me que a comunicação ao César, passou a estar fechada. Ele percebeu! E reagiu com uma pergunta.
– Desculpem lá, Vocês sabem onde é que posso falar para arranjar um sítio para dormir?
– Precisas tu e mais 20, de um sítio para dormir. – Respondeu o Átila
César percebeu a agressividade na voz de Átila, de fininho agarrou no saco e foi-se afastando devagarinho. Ainda pensei ir atrás dele e informa-lo, mas ele iria conseguir essa informação de qualquer forma. Além disso a pergunta pareceu-me retórica com intuito de “limpar” o seu atrevimento quando se intrometeu numa conversa de homens de rua já batidos .
O ainda bom aspeto do César pareceu ter estado contra ele. Terá ficado “sem abrigo” nesse dia ou no anterior, a julgar pela inexperiência e indumentária.
Após o episódio, não me saiu da cabeça a forma como ele abordou o grupo, cheio de confiança, com um olhar quase desafiador, o que na altura não me pareceu anormal, pois julgava-o conhecido do grupo. Quando me apercebi que ninguém o conhecia lembro-me de achar o puto petulante, depois quando lhe foi ministrado o “tratamento de rua ”, do Átila, cheguei a ter compaixão dele.
Os comentários dos 5 presentes eram unanimes:
– Já viste o puto, chega aqui armado em campeão.
– Eu com a idade dele, já tinha levado um “carolo” – Diz Átila
César estava no meio de 2 mundos, e ainda não estava suficientemente sujo e rude para este mundo da rua, será?
Especulo que terá entrado numa vida desviante, ou pelo menos assim consideraram os seus anteriores senhorios, pais ou familiares por causa disso terá vindo parar à rua, talvez. Gostava de lhe ter perguntado.
Agora na rua o seu Swagger claramente o prejudica.
Na minha perspetiva a falta de aceitação, aqui, nada teve a ver com o facto de ainda não estar maltrapilho, mas com respeito, essa foi a falha, do César. E foi esse respeito que o pessoal revindicou quando ele virou costas.
Infelizmente só tive oportunidade de captar a Identidade Social Virtual do César (Goffman, 1963-2004 p. 6) teria sido interessante conhecer o seu estigma. Pois todos temos um (Goffman, 1963-2004 p. 108). De qualquer das formas o dele era desacreditável, apesar de ter admitido que precisava de um sítio para dormir não me parece que se possa categorizar já como sem-abrigo.

Jesus vem cá abaixo ver isto.
Sentado à porta da igreja sinto a indiferença e até desprezo de quem entra para a missa, Hoje a afluência é grande 18H00, 13 de Março, Sexta-feira de quaresma. É-me percetível que estes fiéis não apreciam a presença dos “sem-abrigo” aqui à porta. Achei curioso que os olhares de esguelha fossem recíprocos, ninguém cumprimenta, dos que entram e ninguém cumprimenta, dos que estão sentados à porta. Chega a haver uma certa animosidade entre os que passam e os que estão sentados na escadaria.
É interessante pensar no terreno fértil de desfavorecidos, nesta escadaria. Se me permitem uma conjetura neste local, imagino Jesus Cristo, aqui, sentado nas escadas a falar com este pessoal desamparado no entanto o seu representante cá na terra, o padre, nunca apareceu sequer à porta, pelo menos durante o tempo que ali passei. Algo se perdeu na mensagem de esperança que Jesus terá deixado? No entanto o Marco António e a Cleópatra dizem-me que há uma senhora que quase dia sim, dia não, lhes trazem bolachas e bolos.
O Marco diz: Os vizinhos aqui é mais fácil virem pôr comida aos gatos vadios ali no jardim do que nos darem alguma coisa a nós”.

Viriato que conversa é essa?
O Viriato sentado nos degraus de cotovelos apoiados nos joelhos, mastiga a pastilha como se não houvesse amanhã. Bem ataviado e de um bom gosto casual, usufruiu do Sol que paira sobre nós. Os primeiros signos tornam-se aparentes. O estigma que estava encoberto torna-se visível de uma forma involuntária. Enquanto olha para os punhos inicia um diálogo dinâmico consigo mesmo, percebe-se que está em desacordo consigo mesmo, em algumas das respostas chega-se mesmo a exaltar. Não fosse aparentemente ter alcançado um consenso entre as duas manifestas identidades e quero crer que poderia ter assistido a um violento confronto. Cheguei a ficar assustado, pois ele estava a escassos 2 metros de mim, no entanto ao olhar para os restantes um deles já me estava a fazer sinal com um dedo na cabeça, como que a dizer: É maluco!
De repente o Viriato cospe a pastilha para o chão, leva a mão à sua bolsa a tiracolo tira um cigarro da cigarreira de cartão branco e desaparece avenida abaixo.

Considerações finais
Inicialmente ao iniciar este trabalho sabia por experiencia que respostas a perguntas nem sempre respondem ao que queremos ver respondido. A forma que encontrei de perceber este espaço nas suas formas de inclusão ou exclusão era eu próprio passar por essa experiencia. Não usei microfone mas unicamente um bloco e uma caneta, passei na totalidade cerca de 4 horas nas escadas da igreja dos Anjos divididas por 5 visitas. Sentava-me a 1, 2 metros de quem já lá estava, dizia boa tarde e ia fazendo uns rabiscos no bloco. Sentavam-se perto de mim alguns, o único que me perguntou o que estava a fazer foi o Átila, era sem dúvida o mais desconfiado e não exagero se disser que é o lobo Alfa do grupo. Depois de lhe explicar disse-me: Isso é “bacano ”! Mas os Antropólogos não são os que andam a desenterrar os dinossauros? O que não falta aqui são dinossauros – assim fez-nos rir!.
Erving Goffman esclarece-nos (Goffman, 1963-2004 p. 118) que não existe Normais e Estigmatizados, pois todos nós a dada altura da vida representamos os dois papéis, a frequência com que desempenhamos cada um deles determina o rótulo que teremos. O Largo dos anjos é um local onde parece haver, aceitação, para quem têm um estigma desacreditado. Desempenhar o papel de estigmatizado, dar informação social vitimizante a mais, ajuda ao sustento do dia-a-dia, como no caso da Alice. Existem diferentes razões para se revelar uma carreira moral menos digna. Pode ser unicamente uma declaração de vitória sobre algo que parecia impossível, talvez para contrariar os preconceitos que vigoram na maioria, pode ser uma forma de catarse, ou simplesmente gabarolice. Não tenho dúvidas que numa qualquer conversa o Átila atirasse à cara de alguém os 9 anos passados na cadeia. Isso dava-lhe o prestígio e o respeito que pretendia. Mas com certeza ocultará essa informação no seu dia-a-dia pois nem sempre lhe trás vantagens. O Largo dos Anjos sendo público não está inserido no bairro de ninguém o que me permite estar ali sem ser um estranho, as normas que vigoram são as genéricas de uma sociedade urbana que englobam a consideração a comunhão a franqueza, normalmente a falsidade a hipocrisia e os “jogos de cintura ” são expostos com desprezo ou confronto quando existe alguém sanguíneo como o Átila no grupo. Falhar com alguma destas normas como o César fez, dá-lhe o rótulo, dali para a frente do “puto abusador”. Ainda que na minha opinião César terá faltado à norma mais por falta de conhecimento e inexperiência do que por querer desafiar o estabelecido de uma forma voluntária. (Goffman, 1963-2004 p. 109).
Não é difícil ouvir evocações gloriosas ao passado no Marco António. É fácil observar a frustração em que vive. E reforça que a única pessoa com quem pode contar é esta Senhora aqui – Apontando para Cleópatra – Conheço o Marco há mais de 20 anos e os tempos que ele recorda como áureos são tempos em que eram infringidas regras formalmente promulgadas em forma de Lei (Becker, 1991 p. 15) que eram consumidas drogas ainda proibidas por lei, e se prejudicava terceiros em proveito próprio a fim de colmatar o vício. Ele ainda tem saudades desses tempos. Parece incrível, mas torna-se fácil pensar assim quando olha para a sua condição atual. Cheio de sacos atrás, um cãozinho a companheira, sem poiso fixo para repousar a cabeça. Qualquer coisa é melhor que isto.
Por vezes tal como o Viriato o nosso Estigma não é visível e ouvimos terceiros a falar sobre esse estigma de uma forma intransigente e ignorante, mas isso dá-nos vantagem no controle de informação e por vezes até podemos brincar com essa informação. Em tempos numa ação de sensibilização de prevenção ao consumo de drogas eu e uma colega em Évora abordamos na rua um homem na casa dos 60 anos convidando-o para a apresentação. O Senhor pergunta:
– Mas isso é para quê? – Eu expliquei que essencialmente era para ajudar quem tinha problemas com drogas. Ao que ele me responde:
– Esses! Isso era mas é, mete-los numa casa sem telhado e botar fogo aquilo!
Olhei com um olhar cúmplice para a minha colega e disse ao Senhor enquanto ria: – Olhe que eu também já fui toxicodependente.
– Já? É diabo, mas você está porreiro – E desapareceu.
Desejar a morte a quem tem um estigma é o extremo da intolerância. A própria história do estigma muda consoante a informação que se granjeia sobre ele. Geralmente o que se observa é que a intolerância anda de mãos dadas com a ignorância e muitos estigmas de hoje um dia serão normais no nosso entendimento.

BIBLIOGRAFIA
Becker, Howard S. 1991. Outsiders – Estudos de sociologia do desvio. Rio de Janeiro : Zahar, 1991.
C.Manhã. 15.02.2009. Um dia como sem abrigo. http://www.cmjornal.xl.pt/domingo/detalhe/um-dia-de-sem-abrigo.html. [Online] 15 de 02 de 15.02.2009. http://www.cmjornal.xl.pt/domingo/detalhe/um-dia-de-sem-abrigo.html.
CML, Rede Social de Lisboa. 2009. Plano Cidade Para a Pessoa sem Abrigo. www.lisboasolidaria.cm-lisboa.pt. [Online] 04 de Maio de 2009. [Citação: 13 de 03 de 2015.] http://www.cm-lisboa.pt/fileadmin/DOCS/Planos_estrategicos/planos_municipais/desenvolvimento_social/plano_cidade_pessoa_sem_abrigo.pdf.
Goffman, Erving. 1963-2004. Estigma – Notas sobre a Manipulação da Identidade. Rio de Janeiro : Versão Digitalizada em Português do Brasil, 1963-2004.
Público. 31.03.2014. Mais de 5000 pessoas sem abrigo em portugal. www.publico.pt. [Online] 31 de 03 de 31.03.2014. http://www.publico.pt/sociedade/noticia/mais-de-cinco-mil-pessoas-sem-abrigo-em-portugal-1630338.
SCML. 2015. Uma Casa para mudar de vida. Santa Casa – Misericórdia de Lisboa. [Online] 10 de Fevereiro de 2015. [Citação: 18 de Março de 2015.] http://www.scml.pt/pt-PT/destaques/uma_casa_para_mudar_de_vida/.
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SIPA. 2011. Refeitório dos Anjos. SIPA – Sistema de Informação Para o Património Arquitectónico. [Online] 27 de Julho de 2011. [Citação: 13 de 03 de 2015.] www.monumentos.pt.

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